Sobre o que permanece quando tudo parte


Crescer talvez não seja exatamente sobre conquistas, mas sobre perdas que aprendemos a sustentar em silencio. A vida adulta não se inaugura com a independência, mas com a constatação de que a presença que jamais voltarão, e ausências que são geradas pela distancia. E mesmo assim, ou talvez por isso, seguimos. É um processo lento, sem anuncio, que as vezes é constatado na ausência de passos pela manhã, na garrafa de café que ninguém mais enche. Pequenas faltas que se acumulam na solidão: já não há quem cuide como antes, e agora cabe a você permanecer, mesmo que a xicara permaneça vazia. Percebe-se adulto quando a saudade se torna móvel da casa. Quando se aprende a conviver com quem não está mais. E, no entanto, cuidar.

A vida chega de forma quase imperceptível. Não há um marco exato nem um rito claro. Na infância, a ausência é temporária. Ela tem hora para acabar. O pai que volta do trabalho, o irmão que chega da escola, a noite que termina. Mas em algum momento, algo não volta mais. E nesse instante secreto e irreversível algo em nós muda. Crescer é aos poucos ir se despedindo - dos outros, e por sim, de si.

  Aprender a viver com lacunas.

A preencher vazios com memorias 

A suportar sem barulhos.

Freud escreveu certa vez que “o luto é o preço que se paga por amar”, e talvez a maturidade seja isso: pagar esse preço sem transformar tudo em cinismo, sem endurecer a ponto de não mais sentir. A dor deixa de ser uma exceção e passa a ser um elemento estrutural da experiência. Mas ainda assim, há uma escolha diante dela. E é isso o que resta: a ternura. Não a ternura ingênua, mas a que sobrevive mesmo após o desgaste, a quebra. Cuidar de ausências como se fossem flores, não por esperança, mas por dignidade. Porque há uma forma de amor que não se traduz em presença, e sim em cuidado com o que resta. Uma ética silenciosa de seguir, mesmo carregando partes de si que já não voltam.


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