Patologias do eu

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum a adoção de termos clínicos para descrever traços da personalidade ou modos de estar no mundo, especialmente entre pessoas jovens (em geral entre 18 e 26 anos). Termos como "sou TDAH", "tenho ansiedade social", "sou borderline" ou "tenho depressão crônica" extrapolaram os muros das clínicas e dos consultórios para se tornarem, em muitos casos, formas de autoafirmação identitária.

Essa tendência, embora aparentemente recente, tem raízes em fenômenos sociais mais amplos:


1. A busca por identidade na juventude

Durante a adolescência e início da vida adulta, é comum o desejo de diferenciação e pertencimento, dois polos que parecem contraditórios, mas se retroalimentam: ao buscar se afirmar como único, o jovem também busca um grupo no qual essa singularidade seja reconhecida e validada. Grupos como punks, emos ou grunges foram manifestações culturais que ofereciam essa identificação através da estética, da música e da ideologia.

Hoje, em uma sociedade marcada pela hiperexposição nas redes sociais, medicalização e validação através da dor, os diagnósticos passaram a ocupar um papel semelhante: funcionam como selos que dizem quem você é e a que grupo pertence.



2. A saúde mental como discurso dominante

Nos últimos anos, especialmente no pós-pandemia, houve um aumento da visibilidade dos transtornos mentais, o que, em si, é algo positivo. Falar sobre depressão, ansiedade, autismo ou TDAH é importante para quebrar estigmas e ampliar o acesso ao cuidado.

No entanto, esse processo vem acompanhado de uma psiquiatrização do cotidiano, no qual estados emocionais normais (como tristeza, timidez ou frustração) são rapidamente etiquetados como sintomas clínicos. O sofrimento humano, que é muitas vezes existencial, relacional ou social, é traduzido em linguagem biomédica.




3. O diagnóstico como significante de valor

A lógica das redes sociais contribui para esse fenômeno. Vivemos um tempo em que "ter uma narrativa de sofrimento" pode ser uma forma de capital simbólico: ser visto como alguém sensível, complexo, profundo,  e, com isso, ganhar atenção, pertencimento e validação. Em alguns contextos, o diagnóstico atua quase como um "selo de autenticidade".
Mas essa valorização da dor pode criar dois problemas:
A banalização dos transtornos mentais reais, que são graves, incapacitantes e exigem tratamento cuidadoso;
O risco de autodiagnóstico e uso indevido de medicamentos, como ansiolíticos ou estimulantes, sem acompanhamento profissional.




4. A medicalização da identidade

Filósofos como Michel Foucault já haviam chamado atenção para o poder dos discursos médicos na constituição da subjetividade moderna. O que hoje vemos é uma intensificação desse processo: não apenas somos diagnosticados, escolhemos os diagnósticos que melhor nos definem.

Isso traz à tona a pergunta: até que ponto os diagnósticos descrevem o sujeito? E a partir de que ponto eles o produzem?


Considerações finais

A utilização de diagnósticos médicos como identidade revela uma carência profunda: a necessidade de reconhecimento, pertencimento e sentido. Vivemos em uma sociedade fragmentada, hiperindividualista e carente de vínculos genuínos. O diagnóstico, nesse contexto, pode ser uma tentativa de nomear o vazio, de encontrar uma explicação para o mal-estar, de formar uma narrativa sobre si mesmo.
Contudo, quando o diagnóstico vira identidade, ele deixa de ser uma ferramenta de cuidado para se tornar um limite à transformação. O que era para ser um ponto de partida vira um destino fixo. E o risco maior é que se perca de vista o sujeito para enxergar apenas a etiqueta.

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