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A Ansiedade do Outro: Hermenêutica Afetiva e o Enigma do Desejo

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Na tentativa de decifrar o outro, inevitavelmente tropeçamos em nós mesmos. Cada gesto que o outro realiza,  um sorriso, um silêncio, um story compartilhado, uma figurinha enviada, é lido, quase instintivamente, com o filtro do nosso próprio psiquismo. Supomos que, se nós tivéssemos feito aquilo, teria sido por um motivo X, portanto, o outro também o fez por X. Mas o desejo do outro é uma névoa, e a tradução que fazemos dele costuma ser menos uma revelação e mais um reflexo. Freud já nos alertava: a vida psíquica do sujeito é singular, construída a partir de experiências e fantasmas que escapam à consciência plena. Quando tentamos entender o desejo do outro com base em nossos próprios afetos, estamos projetando nossa lógica interna em uma realidade que nos escapa. E quanto mais afeto está em jogo, mais intensa se torna essa projeção. A menina que te inclui nos “melhores amigos” no Instagram, que sorri nos encontros presenciais, mas depois responde com frieza por mensagem, torna-se ...

O preço do quase

Recebi medalhas que pesam mais no silêncio do que no peito. Tapas nas costas, alguns sinceros, a maioria calculado. Fui parabenizado, erguido, reconhecido. Corri, corri tanto… mas talvez não soubesse ao certo por que. Hoje percebo: corri atrás do que queria, e por isso falhei. A pressa me arrancou da rota do sentir. Me distanciei de tudo que era quente, pulsante, vivo. Sangrei meu coração devagar, sem perceber. Não vi quando o amor escorregou pelas frestas. Perdi o olhar que me desejava sem esforço, aquele que me via mesmo quando eu não me via. Ganhei em tudo. Mas como não fiz disso um propósito, talvez tudo fosse nada. Ou talvez eu seja só mais um que confundiu conquista com completude. E agora, aqui, não exatamente onde sonhei, mas também não distante demais, escrevo sem saber se falo comigo ou com ninguém.

Patologias do eu

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum a adoção de termos clínicos para descrever traços da personalidade ou modos de estar no mundo, especialmente entre pessoas jovens (em geral entre 18 e 26 anos). Termos como "sou TDAH", "tenho ansiedade social", "sou borderline" ou "tenho depressão crônica" extrapolaram os muros das clínicas e dos consultórios para se tornarem, em muitos casos, formas de autoafirmação identitária. Essa tendência, embora aparentemente recente, tem raízes em fenômenos sociais mais amplos: 1. A busca por identidade na juventude Durante a adolescência e início da vida adulta, é comum o desejo de diferenciação e pertencimento, dois polos que parecem contraditórios, mas se retroalimentam: ao buscar se afirmar como único, o jovem também busca um grupo no qual essa singularidade seja reconhecida e validada. Grupos como punks, emos ou grunges foram manifestações culturais que ofereciam essa identificação através da estética, ...

Animais de gravata

A vida não pede licença  ela aparece como um soco nas costelas, sem cerimônia, deixando um rastro de saudades nas partes que antes sequer sabíamos sentir. A beleza e a simpatia, cedo demais, revelam-se como o que são: presentes, jamais direitos universais. O mundo não é justo; é esteticamente seletivo. Não sentir que se está em outro lugar, ou que se deveria estar  tem se tornado um privilégio exótico, um devaneio. No fundo, somos todos animais de gravata, domesticados pelo tédio, civilizados pela vergonha, adestrados pelo medo de perder algo que nunca tivemos.

O Lado de Fora do Mundo

Há momentos em que a experiência do belo revela algo mais do que a mera percepção estética; ela expõe uma distância entre o eu e o mundo, um espaço de inacessibilidade que não é apenas externo, mas profundamente existencial. Essa sensação de não pertencimento, de exclusão de certas dimensões fundamentais da vida humana, remete a uma condição que o próprio Fernando Pessoa descreve com uma precisão inquietante. Pessoa escreve: "Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei... Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos... Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti, Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir..." Esse trecho expõe uma contradição interna: a vivência intensa e acumulada de experiências que, paradoxalmente, deixam uma sensação de insuficiência, um vazio que não pode ser preenchido simplesmente pela multiplicidade das vivências. A percepção de que, apesar de tudo o que se experimenta, sempre há uma falta fundam...

Ensaios para ninguém

Nunca fui como os outros foram Nunca brinquei como brincavam  No fundo dos meus olhos brilha uma luz que me escapa — tênue, insensível às minhas aspirações. Desejei o belo, o útil, o digno. Neguei a mim mesmo, rejeitei a boa vida. Encontrei a parede, a placa, o sinal de pare. E me perdi — em meio a tantos sonhos. Caminhei por vielas sem nome, com os bolsos cheios de perguntas e a alma exausta de esperas. Procurei abrigo no silêncio, mas até ele me olhava com olhos de censura. Fui terra seca sob a promessa de chuva, fui sede diante de um rio de sal. Tudo em mim pedia sentido, mas o mundo respondia com ruído. E ainda assim, insisto — num passo torto, num fio de fé que não sei de onde vem, nem por que permanece. Esperei demais de tudo: das pessoas, das palavras, das manhãs de sol. Mas tudo me chegou partido, fingindo ser inteiro. Aprendi a sorrir com os dentes cerrados, a fingir leveza com os bolsos cheios de pedra. O mundo? Uma vitrine de promessas ocas. E eu, um colecionador de enga...

Sobre o que permanece quando tudo parte

Crescer talvez não seja exatamente sobre conquistas, mas sobre perdas que aprendemos a sustentar em silencio. A vida adulta não se inaugura com a independência, mas com a constatação de que a presença que jamais voltarão, e ausências que são geradas pela distancia. E mesmo assim, ou talvez por isso, seguimos. É um processo lento, sem anuncio, que as vezes é constatado na ausência de passos pela manhã, na garrafa de café que ninguém mais enche. Pequenas faltas que se acumulam na solidão: já não há quem cuide como antes, e agora cabe a você permanecer, mesmo que a xicara permaneça vazia. Percebe-se adulto quando a saudade se torna móvel da casa. Quando se aprende a conviver com quem não está mais. E, no entanto, cuidar. A vida chega de forma quase imperceptível. Não há um marco exato nem um rito claro. Na infância, a ausência é temporária. Ela tem hora para acabar. O pai que volta do trabalho, o irmão que chega da escola, a noite que termina. Mas em algum momento, algo não volta mais. E ...