A Ansiedade do Outro: Hermenêutica Afetiva e o Enigma do Desejo
Na tentativa de decifrar o outro, inevitavelmente tropeçamos em nós mesmos. Cada gesto que o outro realiza, um sorriso, um silêncio, um story compartilhado, uma figurinha enviada, é lido, quase instintivamente, com o filtro do nosso próprio psiquismo. Supomos que, se nós tivéssemos feito aquilo, teria sido por um motivo X, portanto, o outro também o fez por X. Mas o desejo do outro é uma névoa, e a tradução que fazemos dele costuma ser menos uma revelação e mais um reflexo. Freud já nos alertava: a vida psíquica do sujeito é singular, construída a partir de experiências e fantasmas que escapam à consciência plena. Quando tentamos entender o desejo do outro com base em nossos próprios afetos, estamos projetando nossa lógica interna em uma realidade que nos escapa. E quanto mais afeto está em jogo, mais intensa se torna essa projeção. A menina que te inclui nos “melhores amigos” no Instagram, que sorri nos encontros presenciais, mas depois responde com frieza por mensagem, torna-se ...