Ensaios para ninguém

Nunca fui como os outros foram
Nunca brinquei como brincavam 
No fundo dos meus olhos brilha
uma luz que me escapa —
tênue, insensível às minhas aspirações.

Desejei o belo, o útil, o digno.
Neguei a mim mesmo,
rejeitei a boa vida.

Encontrei a parede,
a placa,
o sinal de pare.
E me perdi —
em meio a tantos sonhos.

Caminhei por vielas sem nome,
com os bolsos cheios de perguntas
e a alma exausta de esperas.

Procurei abrigo no silêncio,
mas até ele me olhava
com olhos de censura.

Fui terra seca sob a promessa de chuva,
fui sede diante de um rio de sal.
Tudo em mim pedia sentido,
mas o mundo respondia com ruído.

E ainda assim, insisto —
num passo torto, num fio de fé
que não sei de onde vem,
nem por que permanece.

Esperei demais de tudo:
das pessoas, das palavras,
das manhãs de sol.

Mas tudo me chegou partido,
fingindo ser inteiro.

Aprendi a sorrir com os dentes cerrados,
a fingir leveza com os bolsos cheios de pedra.
O mundo? Uma vitrine de promessas ocas.
E eu, um colecionador de enganos.
Aceitei, por fim,
que há dores que não passam,
e vazios que são casa.
Agora caminho lento,
sem pressa, sem promessa,
sabendo que nem tudo precisa de resposta,
e que existir, às vezes,
é só continuar.

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