O Lado de Fora do Mundo
Há momentos em que a experiência do belo revela algo mais do que a mera percepção estética; ela expõe uma distância entre o eu e o mundo, um espaço de inacessibilidade que não é apenas externo, mas profundamente existencial. Essa sensação de não pertencimento, de exclusão de certas dimensões fundamentais da vida humana, remete a uma condição que o próprio Fernando Pessoa descreve com uma precisão inquietante.
Pessoa escreve:
"Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir..."
Esse trecho expõe uma contradição interna: a vivência intensa e acumulada de experiências que, paradoxalmente, deixam uma sensação de insuficiência, um vazio que não pode ser preenchido simplesmente pela multiplicidade das vivências. A percepção de que, apesar de tudo o que se experimenta, sempre há uma falta fundamental, uma plenitude que não se alcança.
Esse "sempre me faltou que sentir" traduz exatamente a sensação de estar à margem do fluxo vital que os outros parecem atravessar com naturalidade. A vida, para quem observa de fora, pode parecer um espetáculo de intensidade e emoção, enquanto para si próprio ela se reduz a uma "turbulência tranquila de sensações desencontradas", uma experiência marcada pela dispersão e pela insubsistência — como Pessoa nomeia:
"Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices."
Esse "desassossego" profundo é a marca da consciência que não se contenta com aparências ou com a simplicidade do viver cotidiano. Ele aponta para uma inquietação que é, ao mesmo tempo, carga e clareza. A consciência da distância entre o vivido e o sentido pleno do vivido pode se tornar um fardo.
Pessoa avança para uma dúvida essencial, que ecoa a perplexidade diante dessa condição:
"Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cómoda e feliz."
Essa indagação revela uma incerteza radical sobre a própria adequação à vida, uma dúvida se o problema está no excesso de sensibilidade e sentimento, ou na ausência de algum ponto de apoio interno capaz de conectar o sujeito com o mundo de modo mais pleno e integrado.
É essa dúvida que se manifesta na sensação de exclusão do que se poderia chamar de "código social do afeto e da pertença". A percepção de que os outros caminham com facilidade por certos espaços afetivos e sociais, enquanto se está condenado a observar e compreender sem participar plenamente.
Saber que as aparências alheias são parciais, que por trás da leveza aparente existem dores ocultas, não diminui o peso dessa ausência. A consciência que "não apaga a ferida, apenas a ilumina" torna ainda mais claro que não se trata de ilusão ou vaidade, mas de uma distância real, uma espécie de exílio existencial sem mapa de retorno.
Assim, a exclusão aqui não é uma simples solidão, mas um viver "de fora": um viver que se situa na margem das experiências humanas mais básicas , do amor, do toque, do pertencimento. E essa condição não é acompanhada de revolta, mas de uma resignada clareza, uma aceitação amarga daquilo que não é possível alterar.
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